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Marina Guimarães. Foto cedida pela autora. |
Marina
Guimarães é Médica de Família e Comunidade na cidade de Juiz de Fora,
MG. Ela foi uma das cursistas do curso de extensão de Libras, que foi
oferecido na UFJF no ano de 2013. Alguns meses depois, recentemente, ela
teve a experiência de atender um garoto surdo. Então, ela, gentilmente,
aceitou em compartilhar a experiência dela com você. Ela compara com
essa experiência com outra, da época em que era acadêmica de medicina.
Leia e deixe seu comentário a seguir:
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Um dos
incômodos que eu sinto na prática profissional, é quando minha
comunicação com o outro não acontece, e essa, das situações, é a mais
casual. Quanto tempo eu não levei para entender que capotando* é,
curiosamente, um dos anti-hipertensivos mais comuns do meu dia-a-dia, ou
que sensação de areia runha na cabeça pode ser uma vertigem ou uma
enxaqueca?
Muito embora
presente o incômodo, com o exercício diário, corriqueiro e repetitivo da
prática médica, você naturaliza a posição social que mescla autoridade
técnica, observação e perscrutação do outro, sem a preocupação em adotar
o que toda relação entre duas pessoas exige: troca. Ver o outro, no
caso o paciente, como objeto facilita uma vez que distancia,
desresponsabiliza em alguns aspectos e economiza tempo e energia.
Meu primeiro
contato médico com alguém surdo foi na faculdade, em aula prática de
psiquiatria. Uma senhora com cerca de 40 anos encontrava-se em enorme
estado de sofrimento mental, apresentando-se em estado de catatonia**.
Foi muito frustrante, pois ela foi minha primeira experiência de
entrevista psiquiátrica, nem eu, nem mais ninguém no ambulatório sabia
nada da língua sinais, nem sequer o mínimo para criar um laço de
empatia, por mais limitada que estava toda a situação, aquela senhora
não realizava contato visual e movimentava-se a todo tempo pelo
consultório.
Essa primeira
experiência marcou minha formação e deixou um desconforto, que por vezes
voltava. Foi, então, que surgiu a oportunidade de ousar um curso de
extensão de Libras, para iniciantes, da UFJF***. Aprender um pouco sobre
essa língua linda e tão diferente, me fez sentir a possibilidade de ir
além da minha zona de conforto, tanto pela exposição, eu precisaria
vencer a timidez, quanto pelo desafio de entender um raciocínio
linguístico tão diverso.
E não é que um
dia esse garoto chegou e eu resolvi explorar o pouco que não sei? Um
sinal de “Olá”, despretensioso, e um sorriso se derreteu. “Como você
vai?”, “Qual o seu sinal?”, mais algumas arriscadas, e, talvez um
“Tchau” no final das contas, tudo muito foneticamente desajeitado, mas
que acabou por propagar uma maravilhosa sensação, e a impressão de que
uma relação digna e comunicante pode acontecer, com troca e empatia, nas
situações onde grandes barreiras profissionais podem existir.
Vivência
maravilhosa, esse curto momento foi a significância do expor-me ao bom
ridículo, colocar-me na posição do observado, saindo da zona de conforto
do observador tecnicista, do biomédico pudorado. Foi ter a ideia de que
alguns gestos podem somar inesperadamente, tanto para mim quanto para o
outro. Sentir que portas foram abertas numa despedida que aguarda
retorno sem pesares.
Por vezes não
nos esforçamos ou não nos interessamos pela acessibilidade do outro, que
pode parecer um alguém muito distante do que atualmente somos, mas esse
outro não é nada diferente, os sentimentos são os mesmos, tanto os que
doem quanto os que subjugam ou fazem sorrir. Uma saúde de qualidade
demanda exigência com o que profissionalmente você pode oferecer. Uma
democracia em saúde igualitária está intimamente relacionada com a real
capacidade que tem de se impor enquanto distinguidora de diferenças e
harmonizá-las em prol da equidade, e é nisso que eu acredito.
Porque os olhos brilham,
E entre sorrisos e gestos
Absorvo, entendo, compartilho.
E de lá para cá,
Sinais fragilmente deslizam
E se despedem, sem despedaçar momentos
Que a memória não há de se esquecer.
* Capotando é
uma forma comumente ouvida por profissionais de saúde quando o usuário
quer se referir ao anti-hipertensivo captopril, um dos mais prescritos
diariamente.
** Catatonia na
depressão é um quadro que se acompanha de apatia severa, pessimismo,
imobilidade ou lentidão, mutismo seletivo e perda da capacidade de
sentir prazer.
*** UFJF – Universidade Federal de Juiz de Fora
Marina Guimarães
Médica atuante na Estratégia de Saúde da Família.
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Quero agradecer
à Marina pela colaboração com o blog, e relatar a minha alegria em
saber que, através do nosso curso, ela conseguiu fazer a diferença na
vida de uma pessoa surda. E parabenizá-la pela sensibilidade que possui
no que tange a consciência social da profissão médica.
http://descobrindoasurdez.blogspot.com.br/2014/02/e-nao-e-que-um-dia-o-encontro-da-medica.html
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