RYBENINHA

RYBENINHA
SINAL: BEM -VINDOS

DÊ-ME TUA MÃO QUE TE DIREI QUEM ÉS



“Em minha silenciosa escuridão,
Mais claro que o ofuscante sol,
Está tudo que desejarias ocultar de mim.
Mais que palavras,
Tuas mãos me contam tudo que recusavas dizer.
Frementes de ansiedade ou trêmulas de fúria,
Verdadeira amizade ou mentira,
Tudo se revela ao toque de uma mão:
Quem é estranho,
Quem é amigo...
Tudo vejo em minha silenciosa escuridão.
Dê-me tua mão que te direi quem és."


Natacha (vide documentário Borboletas de Zagorski)


SINAL DE "Libras"

SINAL DE "Libras"
"VOCÊ PRECISA SER PARTICIPANTE DESTE MUNDO ONDE MÃOS FALAM E OLHOS ESCUTAM, ONDE O CORPO DÁ A NOTA E O RÍTMO. É UM MUNDO ESPECIAL PARA PESSOAS ESPECIAIS..."

LIBRAS

LIBRAS
" A Língua de Sinais é, nas mãos de seus mestres, uma linguagem das mais belas e expressivas, para a qual, no contato entre si é como um meio de alcançar de forma fácil e rápida a mente do surdo, nem a natureza nem a arte proporcionaram um substituto satisfatório." J. Schuyler Long

LIBRAS

LIBRAS
"Se o lugar não está pronto para receber todas as pessoas, então o lugar é deficiente" - Thaís Frota

LIBRAS

LIBRAS
Aprender Libras é respirar a vida por outros ângulos, na voz do silêncio, no turbilhão das águas, no brilho do olhar. Aprender Libras é aprender a falar de longe ou tão de perto que apenas o toque resolve todas as aflições do viver, diante de todos os desafios audíveis. Nem tão poético, nem tão fulgaz.... apenas um Ser livre de preconceitos e voluntário da harmonia do bem viver.” Luiz Albérico B. Falcão

PEDAGOGIA SURDA

PEDAGOGIA SURDA
PROFESSOR BILÍNGUE

QUANDO EU ACEITO A LÍNGUA DE SINAIS

QUANDO EU ACEITO A LÍNGUA DE SINAIS
“ A língua de sinais anula a deficiência e permite que os surdos constituam, então, uma comunidade lingüística minoritária diferente e não um desvio da normalidade”. Skliar

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Relato de um deficiente.




Eu era uma criança perfeita e saudável, ou pelo menos era isso que meus pais esperavam, em fim no dia do meu nascimento por um momento eles tiveram essa certeza, contudo logo perceberam que eu tinha algo que nenhum outro bebê tinha. Meu pai muito preocupado perguntou ao médico o que eram aquelas duas coisas, uma de cada lado da minha cabeça. O doutor o acalmou dizendo que poderia fazer uma cirurgia plástica reparadora para retirar essa cartilagem coberta de carne e tapar os buracos que cada uma tinha. Esse foi o início de tudo, espero que ao conhecer o meu lado da estória vocês entendam o motivo do que eu fiz.
Logo depois que minha mãe recebeu alta do hospital, ela é carregada para o carro em cadeira de rodas e antes de sair ao sol ela prende em sua cabeça o seus óculos escuros com um elástico em sua cabeça. Segurando-me em seus braços ela toca nos buracos na minha cabeça e nas cartilagens cobertas com carne, minha tia que nunca segurou suas ideias disse que aquilo parecia com uma folha e que era melhor colocar um algodão nos buracos se não meu cérebro iria sair por eles. Meu pai tentava dirigir com cuidado, mas a aqueles dois buracos em minha cabeça o incomodavam. Minha tia mais uma vez comentou:
- Olha só esses buracos ficam a quatro dedos de distancia de cada olho, eu acho que se assoprar de um lado o ar sai do outro.
- Cale a boca você não vê que ele é deficiente. Tenha respeito! – Falou meu pai.
Ao chegar a nossa casa, toda a minha família aguardava para me ver, mas a euforia logo se transformou em pena por ver aquelas duas coisas em minha cabeça. Vendo os olhares compadecidos, minha mãe não segurou as lágrimas e implorou a meu pai que procurasse logo um médico para tirar aquelas duas folhas de carne e tapar esses buracos.
Na sala de estar meu carrinho me aguardava e deitado lá todos os parentes olhavam atentamente para a minha deficiência e cada um dizia com o que se parecia. Uns diziam que era uma flor, outros que era uma folha, meu tio José as tocou e disse que a sensação ao tocar era parecida com a de tocar o nariz. Nessa pequena confusão minha tinha foi para cozinha preparar um chá de camomila na intenção de acalmar a todos. Ao pegar a chaleira, sem querer, todas as panelas caíram ao chão, meu pai me observava e também viu quando as panelas caíram. Nesse momento ele percebeu que havia mais uma coisa errada comigo, quando todas as panelas caíram, eu chorei assustado, nisto minha mãe pegou-me nos braços e eu me acalmei. Meu pai pegou uma das panelas e uma colher para fazer um teste comigo, ele batia levemente na panela para ver a minha reação e com minha cabecinha eu olhava para o lugar de onde ele batia. Nesse instante meu pai soltou as panelas no sofá, olhou para minha mãe e sinalizou para ela dizendo que eu me incomodava quando se batia em objetos. As preocupações de minha mãe só aumentaram, ela pensava em como eu dormiria e como seria na escola, pois eu não conseguiria prestar atenção nas aulas. Meu tio sinalizou dizendo que eram aqueles buracos em minha cabeça que faziam isso, nisto meu pai pediu que batesse novamente na panela enquanto ele tapava os buraquinhos com os dedos. Meu tio tinha razão, dessa vez foi diferente, eu não tive nenhuma reação. Assim, descobriram pra que servia aquilo.
Em uma consulta os médicos disseram que primeiro tinham que estudar a minha deficiência para poder fazer a cirurgia. Como meus pais eram pobres não houve muito interesse no estudo, mas logo o interesse pela minha deficiência aumentou, pois outras crianças nasceram com o mesmo problema. Alguns anos se passaram e os médicos ainda não encontraram uma cura par nós, mas decidiram que era melhor juntar essas crianças em escolas exclusivas. Conheci vários meninos e meninas que também tinhas esses dois buraquinhos na cabeça. Com o contato com os outros descobrimos que as nossas bocas também tinham uma deficiência. Enquanto as outras as usavam apenas para comer, nós percebemos que poderíamos usa-las para nos comunicar. Nossas línguas começaram a se mover de maneira estranha e sons saiam de nossa garganta. O professores ficaram com medo, pois não entendiam o que era dito e logo disseram aos nossos pais sobre essa comunicação. Para decidir o que seria feito, depois muitas discussões foi decidido que o único modo aceitável para a comunicação era as mãos. Foi ordenado que durante as aulas fosse proibido usar a boca para a comunicação e os pais também deveriam impedir que as crianças de usá-las. Muitas vezes minha boca foi amordaçada, no inicio meus pais tentaram aprender a usar a boca para se comunicar, mas em vão, para eles era muito difícil. Para nós também era difícil usar as mãos para se comunicar, por mais que tentássemos era como se nossas mãos estivessem amarradas. Crescemos usando a nossa boca as escondidas, na escola era proibido, mas quando estávamos sós ninguém nos segurava. Entendíamos muito pouco os nossos pais e isso nos deixava muito tristes, além do mais as pessoas que nos viam usando a boca ficavam nos olhando espantadas como se fôssemos de outro planeta.
Quando eu completei oito anos chegou a noticia tão esperada por meus pais, a cura foi descoberta. Toda a imprensa deu atenção a isso os médicos afirmavam que em fim poderíamos ser normais, e trabalhar e estudar sem ser um peso para os outros. Como era de se esperar, fui inscrito para essa cirurgia. Eles explicaram que a nossa deficiência acontecia por que dentro dos buraquinhos em nossa cabeça havia um órgão em forma de caracol que se conectava ao cérebro, assim a esse caracol seria retirado junto com a cartilagem e os buraquinhos seriam fechados. Meus pais ficaram com medo, mas não queriam que eu fosse um deficiente, assim autorizaram a cirurgia.
Depois de uma longa internação, a cirurgia foi feita. Depois que retiraram os curativos eu levei minhas mãos até o local onde ficavam os buraquinhos, mas eles não estavam lá. Fiquei feliz ao sentir isso, logo fui transferido para a escola normal e isso foi muito ruim, pois eu não conseguia entender o que o professor diziam com as suas mãos. A frustração me consumiu, mas pensei que logo ela sumiria, por que a tarde encontraria meus amigos e mostraria a cirurgia. Às três horas da tarde todos me esperavam, empolgado, fui logo contando como foi tudo. Mas, logo percebi que as bocas de meus amigos abriam e fechavam e eu não entedia nada.
Com o tempo aprendi um pouco mais da comunicação dos meus pais, todos olham pra mim e não me chamaram mais de deficiente. Alguns de meus colegas não fizeram a cirurgia, por um tempo achei que eles eram burros e tapados, mas no lugar da certeza que eles haviam perdido algo surgiu uma dúvida: Será que quem perdeu fui eu? Todos os dias isso soava em minha cabeça, passei a me sentir multilado e a pensar que eu poderia me comunicar usando a boca e também aprender um pouco da comunicação dos meus pais, mas era tarde demais.
Pensei em várias formas de resolver isso, e conclui que eu não sei quem eu sou. Não consigo mais me comunicar com meus amigos e pouco me comunico com meus pais. Sou igual a eles, mas acho que eles não se preocupam comigo, primeiro me mutilaram e agora me ignoram. Assim, não há outra solução, não sou quem eu era e não serei mais. No pouco qur entendia da sinalização vi alguém dizendo: “Minha pátria é minha língua”, em tão qual a minha pátria a que nasci com ela e a arrancaram de mim ou a que me forçaram a me tornar um cidadão dela. Realmente eu nunca tive escolha, viver assim ou não viver, mas agora eu posso escolher e já decidi. Adeus.

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